sábado, 19 de maio de 2018

isso é só São Paulo, meu bem

   Passei a noite sonhando com os seus beijos. Isso é, se considerarmos 4 horas de sono uma noite inteira.
   Antes de dormir eu fiquei revirando na cama e sofrendo por antecipação. O estômago embrulhado com a ideia da frustração que seria te ver em um lugar cheio de gente. Tentava imaginar, me encolhendo entre os lençóis, se seria possível alguma acrobacia que me permitisse enfiar a mão nas suas calças sem ser vista pelo Big Brother. Sem ser expulsa da estação.
   Eu diria, com meu corpo ardendo no seu e a voz rouca de tesão, que eu queria pelo menos tocá-lo. E mesmo enquanto pensava nisso, eu conseguia sentir a textura da sua pele quente, o membro rijo e grosso pulsando na minha mão. O que me levaria a outras vontades e outras tentativas de saciá-las em público, contendo de alguma forma a urgência de tirar a minha calcinha na frente de criancinhas, e sentar no seu pau, encobrindo o ato com a barra do meu vestido.
   Faz um tempo que estamos nessa. O meu corpo fica cansado com as provocações e todo esse desejo nunca suprido.
   Na primeira semana a minha menstruação resolveu aparecer um dia antes do nosso encontro. Porra, desceu pra mim, eu anunciei, esperando que você dissesse que me fodia assim mesmo, mas essa proposta não veio. É engraçado como mesmo os mais fetichistas raramente fazem tal proposta. No mesmo dia eu caí de cabeça, fiquei com o pescoço travado. Nem uma bela chupada. Se for só pra dar o cu, eu não dou nada. Já basta o absorvente interno desconfortavelmente socado na minha buceta.
   E depois as coisas foram acontecendo. Você só pode sábado, mas nunca pode sábado.  A falta de tempo, as provas, a distância, a depressão. As promessas dos dias virando semanas e escorrendo como se fosse sempre existir um amanhã.
   Eu não funciono sozinha. Sou um forno a lenha e a sua madeira é momentaneamente escaldante, mas não sustenta o meu fogo por muito tempo. No fim mais parece uma brasa, que aos poucos vai apagando, e eu apago junto, ficando mais morna do que quente. Essa semana eu mal consegui levantar da cama, ora cozinhando em banho-maria, ora envolta na sua algidez.
   Ontem estava tudo certo. Mais ou menos, né, porque eu fiquei com o celular ao lado, esperando um cancelamento. E peguei no sono, após as horas de fantasia, para acordar com o barulho da garoa na minha janela. Sem abrir os olhos, pensei: "típico". Mas vamos lá, a chuva só me deixará mais molhada para você.
   Infelizmente, as pessoas funcionam de outra forma.
   Fiquei, então, com a cara no travesseiro, esperando a mensagem que não tardou a chegar. 
   E essa chuva, hein?
   Por mim pode chover canivetes, eu respondi.
   Mas vai ficar difícil... você disse.
   Pensei em um dos meus livros preferidos na adolescência, Os Amantes da Chuva. Não, vai ficar perfeito. Um beijo na chuva é um dos itens na minha lista de desejos desde 2007.  EU tinha 17, e VOCÊ mal existia.
   Mas não posso culpar a sua idade. As pessoas, mesmo as de trinta e poucos, não tentam em excesso. Sacrifícios não são feitos nem quando as recompensas são consideráveis. Estão todos resignados, satisfeitos com o que vem fácil; e o que não vem, pela inércia, não lhes afeta grandemente. O desejo humano não supera chuvas ou ventanias.
   Adianta eu dizer que te quero?..., molhada ou sangrando ou sob uma chuva de canivetes, eu te quero. E você me quer, desde que seja fácil e ensolarado. Me quer com hora para partir, antes mesmo de chegar.
   É foda, isso, você diz.
   É São Paulo, isso, eu respondo.
   Talvez eu esteja na cidade errada. Ou no mundo errado. Talvez a errada seja eu, por insistir em coisas que não florescem, mesmo com os maiores cuidados.
   O meu estômago continua embrulhado, e agora a frustração é um fato consumado.


domingo, 29 de abril de 2018

o peixe

   Hoje somos eu e esse Peixe, que dança desajeitadamente em seu aquário, cortando a água com sua calda preta e majestosa feito a seda mais cara desse mundo. Ele tem olhos maiores do que os dos peixes de outras espécies, e parece estar sempre nos olhando bem no fundo da alma, mas na verdade é quase cego. 
   Eu e esse Peixe — em ambiente propício poderíamos ser grandes, mas aqui teremos sorte se não sufocarmos com a toxicidade da nossa própria merda.
   Nunca pensei em ter um peixe. Não por não gostar dos mesmos, mas por ter por eles, ao contrário, uma estima acima da média. O suficiente para não querer fazê-los refém. Todos se preocupam com cães e gatos, e todos conseguem se indignar com o destino dos pássaros domesticados... Mas quem entende os peixes? Quem assimila que, assim como qualquer bicho, eles são capazes de sentir dor, amor, gratidão, solidão...? Até alguns "vegetarianos" desconsideram-nos enquanto seres vivos e os comem. Peixes ornamentais! O ultraje! Humanos, como sempre, rebaixando seres à coisas!
    Eu não queria. Não pensava. Mas esse Peixe, ele veio pra mim. Compartilhamos todas as características mais básicas do ser.
   Ele é uma coisinha comilona, comprado como brinquedo para uma criança que logo enjoou do presente, e passava, então, todo seu tempo sozinho, nadando a esmo em sua pequena prisão.
    Acho que sequestrei o Peixe, e não planejo devolvê-lo ou pedir resgate. Agora ficamos nós dois e a borboleta de plástico presa na parede, iluminados por luzes coloridas de LED, ao som de música ultrapassada. Assim vamos tapando os buracos da nossa solidão.
   Às vezes ele fica parado por tempo demais, e num sobressalto eu bato com meu dedo indicador em sua parede de vidro, até que ele recomeça seu nado, olhando, olhando, sem ver nada.
   Esse Peixe sou eu e eu sou esse Peixe, porque também sei o que é ser adquirida como brinquedo e descartada quando o encanto passa. Eu também sei o que é viver em uma prisão de luxo; ser incapaz de fugir, porque a domesticação é mais forte do que a vontade de viver.
   Será que ele sabe que eu o estou usando mais do que o ajudando?
   Algo me diz que os seres vivos sempre sabem. Até os peixes.



quinta-feira, 8 de março de 2018

desespero compartilhado

   Não tem nada mais triste do que um ser humano quebrado. Um ser humano que perdeu completamente a fé no mundo e em si mesmo. Que não espera nada: nem coisas boas,  nem coisas ruins. Só o fim. 
   Um corpo sem alma, uma casca vazia que trabalha no automático, come no automático, lê no automático, fode no automático, e que não ama, porque o amor não é automático. Amor requer esforços constantes e uma alma inteiramente disposta a compreender e confiar; se entregar sem meios termos.
   Todas as coisas passando através destes corpos, como se não houvesse ninguém ali, é triste. O conhecimento não adere, as emoções não adentram. É tudo em vão, um passatempo inútil enquanto a morte não chega.
   Às vezes eu fico tão concentrada em salvar pessoas quebradas, que não percebo que eu mesma não funciono. Não existe uma fábrica para mandar ninguém pro conserto. Não existe tutorial na internet. Uma vez quebrado, o ser humano não volta a funcionar como deveria.
   Sou egoísta. Tento arrumar estes seres humanos para que eles tenham alguma serventia para mim... para que me lembrem como é sentir. Para que sejam gratos e retribuam o favor. Isso nunca se cumpre. Sigo, também, com olhos e instintos vazios.
   Hoje eu percebi que a escrita não serve para nada, e isso me quebrou mais um pouco.
   Qualquer um com um pingo de dignidade, sendo impelido a escrever e não podendo evitá-lo, rasgaria as folhas logo em seguida, e as queimaria. Ou, o mais provável, apertaria ctrl + A, del.
   Isso porque, quando escrevemos, projetamos uma imagem que deixa de existir em poucas horas. Tudo o que somos agora, evaporará no momento seguinte, porque mesmo no piloto automático, nós não somos estáticos.
   Nos contradizemos. Mudamos de ideia. Esquecemos o que dissemos, e principalmente, o que um dia sentimos. E quando alguém pega algo que foi escrito há 2 ou 10 ou 1000 anos atrás, não irá pensar nisso. Esse leitor não vai saber que mudamos, que temos o direito de mudar. Ele vai mentalizar em nós as qualidades e defeitos que uma vez tivemos, e irá nos cobrar um comportamento que não podemos oferecer. Irão esperar consistência, sendo que a natureza humana é inconsistente.
   Quando o conheci li todos os seus textos, e ali projetei uma imagem. Parecia uma percepção muito acertada. Hoje, meses depois, lendo novamente tais textos, já não o enxergo naquela imagem. Soa distorcida e plastificada, como um personagem mal escrito. A imagem já se desfez, provavelmente muito antes de eu conhecê-lo. 
   Ele me perguntou se foi inconsistente, e hoje eu vejo que sim, e que isso não poderia ter sido evitado, porque há registros de todas as coisas que ele nunca mais será. Há palavras e memórias que talvez nem ele lembre de ter vivido.
   Eu não sou a mesma de 2 anos atrás, e ainda assim, esperei que ele fosse. E quando leem o que eu escrevi, o que as pessoas esperam que eu seja?
   Não sou tão sonhadora quanto já fui. Não sou tão boa e nem tão ingênua. O que eu sou agora? Não importa, porque amanhã já não o serei.
   Eu acho que se tivéssemos nos conhecido antes... Quando havia loucura e ingenuidade, e a falta de esperança ainda estava lá na esquina, teríamos nos dado muito bem. Talvez ali tivesse dado certo. Onde você estava, e onde eu estava? Fazíamos coisas similares, mas em lugares diferentes. Mas não nos esbarramos no momento certo. Talvez a pessoa que eu gosto nem sequer existe mais.
   Agora nós somos assim, adultos conformados e conscientes de como tudo pode dar errado — e de certa forma esperando que dê, para que as nossas predições se concretizem.
   Estamos quebrados demais para funcionar juntos.
   

segunda-feira, 5 de março de 2018

oi sumido

   Lembra como era? 
   Era horrível. A gente não se encaixava. O seu pênis ficava escapando. 
   Eu não gostava do seu cheiro e nem do seu gosto, mas te chupava mesmo assim. Mesmo quando você teve aquela infecção urinária.
   Eu nunca gozei. Você teve uns bons momentos. Às vezes, nada. 
   Lembra? Era bem estranho. Estávamos competindo o tempo todo...
   ... Qual de nós era o mais talentoso, o mais inteligente, o mais porra louca; quem lia mais e quem bebia mais antes de cair...
   Whiskey de dez conto descendo sem gelo. Deitávamos no colchão do seu quarto ao som de Depeche Mode e você me depreciava.
   Você gostava de morte (e eu também — mas de formas diferentes).
   Quando saíamos rachávamos a conta. Meus irmãos te odiavam ainda mais por isso. Tem toda a moral patriarcal. E você os desafiava
   Saindo do meio dos meus lençóis e passando em frente ao local de trabalho deles, numa declaração descarada: "acabei de foder sua irmã".
   Isso também demonstrava a minha falta de moral, na visão deles.
   Mas eu tinha pudor até demais.
   Quando você queria, eu não queria; quando eu queria, você não queria. Não tínhamos sincronia.
   Te fiz um belo almoço vegetariano (minha sina), mas você não apareceu.
   E teve aquele dia, na Praça do Forró...
   Você chegou, moicano e maquiagem, a pele mais canela e aveludada do que nunca, como numa foto em alta resolução; uma camisa social vinho sobre uma camiseta toda suja de tinta. Um jeans surrado, igualmente manchado. Te achei tão sexy. Quis pegar no seu pau e te beijar ali mesmo. Mas apenas disse, a voz quase sumindo: "você é tão sexy". Seu olhar alcançou o meu, cheio de delineador e impaciência, e você não disse nada.
   Bebemos a cerveja barata e ficamos sem dinheiro para a condução... andamos até a sua casa. Ao chegarmos eu estava toda suada e descabelada, mas me sentia estranhamente fêmea.
   Você comeu brócolis e me deu presunto, me censurando de forma passivo-agressiva por comer bicho.
   E tinha uma menina, eu acho que se chamava Carol ou Ana ou Beatriz, um desses nomes de moça de família. Eu não sentia nada por você além de ciúmes. Era a mais pura definição de terror. E acabou.
   Mas hoje eu estou sozinha e entediada. Meio angustiada. Estava acompanhando os ultrajes do Big Brother Brasil, veja a decadência! Ouvi Jeff Buckley pensando em uma determinada pessoa. E depois você surgiu no meu pensamento. Nem sei de onde veio.
   Eu poderia te mandar uma mensagem... Eu sei que faz uns 6 anos. Eu não te suporto. E nunca foi muito bom.

Oi sumido

Não. Não sou tão sutil.
E aí, quer foder?

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

inteira

   Quando eu me dou para as pessoas, elas nunca me querem inteira. Me querem fragmentada. Eu sou um ser humano completo, com desejos e sentimentos que por vezes  parecem não caminhar juntos, mas que são os mais sinceros que alguém pode oferecer...
   E isso é inaceitável para elas. Querem apenas o que fica entre o bom e o sofrível, quando, ao contrário, eu ofereço excelência. O mundo que existe dentro de mim — esse solo nunca explorado. Eu ofereço mais do que o suficiente. Ofereço uma viagem completa e louca.
   Mas não. Querem que eu escolha uma só fantasia e nunca me dispa dela. Ser a irmã ou ser a puta. Ser a amiga ou ser a amante. Ser fofa ou ser safada. Eu quero ser tudo, quero ser plena. Nós não precisamos seguir uma linha reta, e por que você está tão assustado?
   Eu acordei e estava contente. Mas o contentamento durou pouco e foi engolido pelo buraco negro que habita minha alma. As lágrimas rolaram sobre o travesseiro ao qual eu durmo agarrada, fingindo que é o seu corpo entre meus braços, seu peito sob a minha cabeça...
   O desejo era latente no espaço mais íntimo do meu ser; o desejo de te adorar e ser adorada na mesma proporção; tocar todos os espaços que existem em você e ser tocada como nunca antes... E que ilusão é essa! Desejo que nunca alcanço...
   Brinquei com a possibilidade de te ligar, eu diria: "te quero! e você? algum pedaço de você me quer?"
   Mas eu quero que você me queira por inteiro também...
   Se não te ligo, se não te pergunto e permaneço esperando, é porque sei o que ouviria.
   Então eu me atiraria em direção a um penhasco ou de outros braços: dá na mesma.